

Na quarta-feira de cinzas iniciamos a caminhada quaresmal de 2026.
O tempo litúrgico da quaresma, quarenta dias, é um tempo de graça que motiva todos os cristãos mergulharem confiantemente no amor misericordioso de Deus em vista da conversão.
O tempo quaresmal segue um itinerário espiritual próprio e sugere algumas atitudes para os cristãos viver o período de forma mais consistente, realmente como uma experiência transformadora de fé.
Optamos por destacar quatro atitudes que poderão ajudar em uma boa caminhada quaresmal como uma trajetória espiritual fértil e transformadora das nossas vidas.
A primeira atitude, já proposta na celebração da quarta-feira de cinzas é a conversão.
No rito de imposição das cinzas ouvia-se a proposta: “convertei-vos e crede no evangelho”.
Nesse tempo são entoados cantos que lembram da necessidade de conversão, convite aberto a todo o ser humano.
A palavra conversão é oriunda do termo grego metanóia que significa mudança de mentalidade, mudança do modo de pensar.
Tal mudança se expressará na prática cotidiana. O fruto de uma mente e coração convertidos é uma prática modificada.
João Batista já fazia esse convite ao indicar a necessidade de preparar-se para acolher o enviado de Deus (cf. Mt 3,2; Mc 4,1).
Jesus, em vários momentos da sua missão, reiterava a necessidade de conversão (Mc 1,15; Mt 18,13; Lc 13,5).
Mas conversão também significa convergir para a vontade de Deus. Voltar-se para Ele, que é o contrário da perversão que é se comprometer com diferentes direções e atitudes. Diz respeito ao foco em um único objetivo, uma única direção, ao que Deus quer.
Diferente da perversão que é ir em outras direções. Implica em fazer a experiência da reconciliação com o Criador.
Esta proposta está sempre aberta e, nesse tempo santo da quaresma, cabe fazer-se a pergunta: o que significa a conversão na minha missão de cristão?
Que atitudes assumidas indicam que estou no caminho da conversão?
A segunda atitude diz respeito à humildade em buscar misericórdia de Deus.
Esta atitude, enquanto convite, se expressa em muitos cantos quaresmais.
Sugere que não somos tudo e não podemos tudo. Somos pó e ao pó voltaremos (cf. Gn 3,19).
Diante do erro e do pecado é necessário buscar e sentir a misericórdia de Deus. Buscar a reconciliação.
Da sua iniciativa misericordiosa não se tem dúvidas. Entretanto, muitas vezes, o ser humano não dispõe a fazer esta busca.
Cabe colocar-se no lugar do jovem que teve a coragem de assumir o caminho de volta, depois do erro, para encontrar-se com seu pai que lá estava o esperando (cf. Lc 15,18-20).
Lucas ainda afirma na primeira parte desse evangelho que para Pai misericordioso não existe “perdido”. Ele vai em busca ou espera para acolher e reconciliar-se.
É tempo de experimentar intensamente a misericórdia de Deus. Fará um bem enorme para cada pessoa que faz tal experiência.
Uma terceira atitude ganha intensidade na caminhada quaresmal.
É a busca de uma proximidade maior com Jesus Cristo e sua proposta. É importante essa busca, porque corre-se o risco de assumir uma caminhada quaresmal meramente devocionista, contudo sem voltar-se à centralidade do Filho de Deus e o mistério da sua paixão e ressurreição.
Na quaresma Jesus não é um detalhe ou um acessório dispensável. Ele é o centro do período quaresmal. Tudo se volta a Ele.
A proximidade com Jesus acontece com a reflexão sobre os evangelhos diários e dominicais. Também pela meditação da Via-Sacra e outros instrumentos dispostos pela Igreja.
Ali está um roteiro da vida do Filho de Deus significativo e sustentador da vida de oração pessoal, familiar e comunitária.
Uma quarta atitude compreende a dimensão social da nossa fé.
A quaresma não é um projeto de fé intimista. É um projeto cristão-eclesial com acento pessoal de repercussão comunitária e social.
A Igreja no Brasil tradicionalmente propõe a Campanha da Fraternidade que trata sobre um tema pertinente a nossa vida de fé vivida em comunidade.
Este ano versa sobre a Fraternidade e moradia digna, a partir do lema “ele veio morar entre nós” (cf. Jo,1,14). Ter casa para morar é porta de entrada de tantos outros direitos.
O teto é constitutivo da dignidade de uma família. Então, a campanha é oportunidade de olharmos ao nosso redor buscando as implicações da nossa fé em Jesus ressuscitado na vida em sociedade.
Estamos imbricados e somos também responsáveis por esta realidade a ser transformada segundo os critérios do Reino anunciado por Jesus.
Não nos esquivemos desse compromisso intrínseco à fé cristã.
Façamos da caminhada quaresmal um tempo de graça e conversão. Não desperdicemos esta chance que o Pai nos oferece em seu amor misericordioso. Compreendamos que a quaresma nos levará à Pascoa, a festa da alegria, a vitória do ressuscitado sobre as forças da morte. Somos parte dessa linda caminhada.
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.