

O evangelho de Lucas 12,13-21 nos confronta com uma pergunta fundamental: o que estamos fazendo neste mundo? Jesus afirma com clareza: “a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (v.15).
Ao apresentar essa parábola, Ele nos situa no horizonte do sentido profundo da existência e revela que o ser humano está orientado a um fim maior: ser rico diante de Deus (v.21).
Um dos males mais profundos de nosso tempo é, sem dúvida, o vazio existencial. Essa enfermidade silenciosa atinge milhares de pessoas, provocando depressões, ansiedades e neuroses.

Diante disso, surgem perguntas que ecoam como gritos interiores: Por que vivemos? Para que vivemos? O que vale uma vida e o que realmente vale na vida?
Todos carregamos o desejo de preencher a vida com encontros, relatos, gestos, lições e afetos. Quando esse anseio é ignorado, o vazio interior dá lugar ao tédio, ao cansaço e à esterilidade da existência.
Não se trata de um sentimento passageiro, mas de um mal-estar que cresce de dentro para fora e reveste a vida de ceticismo, desânimo e indiferença.
O drama das heranças, citado no início do evangelho, introduz o pano de fundo da ganância e da posse. “Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança!” (v.13). Não é apenas um conflito familiar, mas o reflexo de uma mentalidade que mede a vida por aquilo que se possui.
Jesus responde com firmeza: “Cuidado! Ficai atentos contra todo tipo de ganância” (v.15). Aqui, Ele denuncia o perigo da idolatria do dinheiro, quando os bens passam a ocupar o lugar de Deus, transformando o coração humano num campo de disputa por aquilo que é efêmero e incapaz de oferecer sentido definitivo à existência.
Ao narrar a parábola do homem que acumulava bens para si, Jesus desvela uma lógica ainda vigente em nossos dias: viver como se a segurança estivesse nos celeiros abarrotados. O homem da parábola é cego ao outro e surdo a Deus. Não há partilha, nem gratidão.
Tudo gira em torno do “meu”, “para mim”, “meus bens”. Sua vida se resume ao acúmulo. É um espelho perturbador: uma existência voltada para si mesma, desprovida de relação, memória e transcendência.
Essa mentalidade individualista, quando cultivada, bloqueia qualquer senso vocacional e paralisa a generosidade do espírito.
Jesus o chama de “louco”: “Nesta mesma noite, tua vida será exigida de ti. E o que acumulaste, para quem será?” (v.20). Essa palavra é um choque. Loucura, aqui, não é apenas uma ofensa, mas um diagnóstico espiritual.
É louco quem vive como se Deus não existisse, como se a vida fosse apenas tempo útil para acumular e desfrutar. É louco quem esquece a alma e a eternidade.
É louco quem ignora o próximo. Louco, enfim, é aquele que se ilude com a mentira do acúmulo, sem se tornar rico diante de Deus.
A parábola não condena os bens em si, mas a falsa confiança neles — a cegueira espiritual que ignora que tudo, até a própria vida, é dom recebido.
Essa advertência evangélica ressoa com força no Mês Vocacional de 2025, que nos recorda: somos “Peregrinos porque chamados”. A vida não é posse, é travessia. O discípulo de Jesus Cristo não é aquele que detém, mas aquele que se põe a caminho.
Para os diáconos, padres, bispos — e também para os seminaristas, especialmente na etapa teológica da formação — trata-se de reconhecer que a vocação não é um projeto de autorrealização, mas um chamado a confiar e a se configurar com Aquele que “não tinha onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).
A formação não deve preparar acumuladores de títulos ou funções, mas peregrinos do Reino, desapegados e dóceis ao Espírito.
O lema deste mês – “A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações” (Rm 5,5) – nos lembra que a vocação da vida clerical nasce e se alimenta da esperança que brota do amor. É esse amor que torna o coração vocacional generoso, humilde, disponível e pobre com os pobres.
Diáconos, presbíteros e bispos são chamados a romper com toda lógica de prestígio ou acúmulo, para configurarem-se com Cristo Servo.
O verdadeiro “ser rico para Deus” passa pelo esvaziamento de si e pela escuta humilde da Palavra.
Nessa peregrinação interior, como ensina o Papa, os passos são: escuta, humildade e serviço.
Só assim a vida se torna fecunda e verdadeira.
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.
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