

Nestes dias em que celebramos o povo gaúcho – no dia 20 de setembro –, reconhecemos não apenas sua história de lutas e conquistas, mas também suas fragilidades, sua coragem e sensibilidade.
Acima de tudo, contemplamos sua fé profunda, enraizada na terra, na tradição e na esperança. A música “Meu Deus Mora no Campo” recorda que Deus habita onde há simplicidade, trabalho e dignidade.
Sua presença se manifesta entre os campos e galpões, como um chamado à justiça: que ninguém passe fome, que todos tenham terra, casa, trabalho e respeito. Essa canção é, portanto, mais do que poesia: é um apelo para reconhecer o rosto de Jesus nos que vivem esquecidos nas periferias rurais e urbanas, nos que lutam com bravura e fé para manter viva a cultura e a vida no campo.
Vivemos também o Mês da Palavra, tempo de escuta e renovação espiritual, no qual somos convidados a mergulhar na riqueza da Escritura, especialmente na carta de São Paulo aos Romanos.
Ali ressoa uma certeza que sustenta o coração do povo de fé: “a esperança não decepciona” (Rm 5,5). Essa esperança nasce da fé, se fortalece na caridade e se traduz em perseverança. É ela que move o povo gaúcho a seguir em frente, mesmo diante de adversidades como enchentes, perdas ou crises. A Palavra de Deus, luz para os nossos passos e força para nossa caminhada, abre horizontes como um campo que nunca deixa de florescer, mesmo após o rigor do inverno.
No Evangelho de Lucas (16,1-13), a parábola do administrador infiel nos coloca diante de um chamado à responsabilidade. Jesus apresenta um homem acusado de má gestão, que, diante da demissão, age com rapidez e astúcia. Essa cena nos recorda que todos somos administradores da vida que Deus nos confiou e que, um dia, seremos chamados a prestar contas de como usamos nossos dons, nosso tempo, nossos recursos e nossas relações. A parábola não justifica a corrupção, mas aponta para a consciência: nossas escolhas têm consequências, e não podemos desperdiçar os talentos recebidos.
Astúcia, nesse contexto, não é sinônimo de desonestidade. O administrador é elogiado não por sua conduta moral, mas por sua capacidade de agir estrategicamente. O Papa Francisco interpreta essa astúcia como um convite aos cristãos a não serem ingênuos ou passivos diante dos desafios do mundo. Como “filhos da luz”, somos chamados a ser criativos, lúcidos e ousados — não para manipular, mas para promover o bem, a justiça e o Reino de Deus. Fé não é ingenuidade, mas coragem iluminada pela inteligência espiritual.
A fidelidade, lembra Jesus, começa nas pequenas coisas: “quem é fiel no pouco também é fiel no muito”. A espiritualidade cristã não se constrói apenas em grandes gestos, mas sobretudo na coerência cotidiana. O Papa Francisco insiste que a santidade se vive no detalhe: no cuidado com o outro, na honestidade, na simplicidade, na paciência com os limites do dia a dia. Se não somos fiéis nas coisas materiais, como poderemos assumir os grandes desafios da vida cristã? A fidelidade é o alicerce da maturidade espiritual e da credibilidade do testemunho.

Jesus conclui a parábola com uma advertência radical: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. O dinheiro, quando absolutizado, torna-se ídolo que desumaniza e gera exclusão. Francisco denuncia a “economia que mata”, em que os pobres são sacrificados em nome do lucro, e em que direitos básicos — como saúde, educação e moradia — se tornam mercadorias. A fé autêntica nos chama a romper com essa lógica e a usar os bens como instrumentos de solidariedade, partilha e comunhão.
A verdadeira astúcia, segundo o Evangelho, é investir naquilo que permanece. O “dinheiro injusto” deve ser transformado em pontes de fraternidade: o que não se partilha, se perde. A única riqueza que não passa é aquela que se converte em amor. Aqui se encontra a sabedoria da fé: transformar recursos em vida, egoísmo em comunhão, bens em bênçãos. O Papa Francisco nos lembra que a lógica do Evangelho é paradoxal — perde quem retém, ganha quem partilha; vence quem serve, não quem domina.
Ser uma pessoa de fé é viver com os pés firmes na terra e o coração voltado para o céu. É cultivar esperança mesmo quando o horizonte parece nublado; é agir com responsabilidade, astúcia e generosidade diante dos desafios; é ser fiel no pouco para ser digno no muito. A fé verdadeira não se reduz a palavras ou ritos, mas se revela na coerência das atitudes, na defesa da justiça e no cuidado com os mais esquecidos. Inspirados pela fé do povo gaúcho, pela Palavra que ilumina e pela parábola que provoca, sejamos “filhos da luz”: atentos, criativos e comprometidos com o bem. Que nossa fé seja como o campo — fértil, livre, generosa, sempre aberta à presença de Deus que caminha conosco.
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.
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