

A Exaltação da Santa Cruz, celebrada em 14 de setembro, convida os cristãos a contemplar o mistério da salvação revelado no madeiro. Não se trata de glorificar a dor em si mesma, mas de reconhecer que, no sinal mais contraditório da história — o suplício da cruz — resplandece o amor infinito de Deus, capaz de transformar morte em vida, vergonha em glória e ódio em perdão. A cruz é escola de entrega, lugar onde aprendemos que doar-se é o caminho para a verdadeira vida.
No Evangelho de João (3,13–17), Jesus retoma a cena da serpente de bronze erguida por Moisés no deserto (Nm 21,4–9). Assim como os israelitas encontravam cura ao olhar para a serpente, também o Filho do Homem é elevado para que todo o que nele crer tenha a vida eterna. O que parecia sinal de derrota converte-se em trono de vitória: na cruz revela-se a força de um amor que não se deixa vencer pela morte.
Escutar a Palavra, neste contexto, significa também escutar o grito das pessoas pobres e excluídas.
Esse anúncio, considerado o “Evangelho em miniatura”, condensa o núcleo da fé cristã: Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho, não para condenar, mas para salvar. Trata-se de um amor concreto e encarnado, que sustenta a vida do crente em meio às provas, consola na dor e abre horizontes de eternidade. Dessa certeza brota a esperança cristã, não como ilusão passageira, mas como confiança firme na graça que nasce do Crucificado-Ressuscitado e fundamenta a missão da Igreja.
A tradição patrística interpretou esse mistério com imagens de grande beleza. Santo André de Creta via na cruz “a vitória da humildade sobre a soberba, o trono do Rei que reina servindo”. São João Crisóstomo afirmava: “A cruz é mais gloriosa que o sol, porque, enquanto este ilumina a vida presente, aquela abre as portas da eternidade”. Para os Padres, a cruz não é memória distante, mas presença transformadora em cada geração.

Setembro, Mês da Bíblia, recorda-nos que a Palavra de Deus é fonte de vida. São Paulo escreve: “A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5). À luz da Escritura, a cruz se torna sinal concreto de esperança em meio às crises e incertezas de nosso tempo. Mais do que ornamento, ela é apelo à conversão. Jesus foi “levantado” para atrair todos a si (Jo 12,32). Segui-lo implica vencer o egoísmo e a indiferença, assumindo a cruz como estilo de vida: doar-se, perdoar e construir pontes. É nesse espírito que o discípulo aprende a carregar a cruz não como fardo, mas como caminho que conduz à ressurreição.
O testemunho de São Pier Giorgio Frassati ilumina essa perspectiva. Apaixonado pelo alpinismo e pela vida em Cristo, via na subida das montanhas uma metáfora da caminhada cristã: esforço, disciplina e renúncia que conduzem à liberdade verdadeira. Seu lema, “Verso l’Alto!” — “Rumo ao Alto!” — expressa bem o dinamismo da fé: orientar todos os passos para Deus. Assim também a cruz, assumida com fé, torna-se escada de ascensão espiritual, elevando o coração ao encontro do Cristo glorioso.

O Jubileu de 2025, com o lema “Peregrinos de Esperança”, reforça essa dimensão. Nossa peregrinação é existencial: atravessamos desertos de solidão e provação, enfrentamos tentações e medos, mas encontramos cura ao fixar o olhar em Jesus crucificado e ressuscitado. A cruz torna-se bússola segura, estandarte do povo de Deus em marcha, fonte de coragem para não desanimar e garantia de que a vida sempre prevalece.
Neste tempo de preparação jubilar, somos chamados a testemunhar que a cruz é sinal de esperança que não decepciona. Viver à sua luz significa ter coragem nas provações, anunciar com alegria o Evangelho e servir com generosidade, sobretudo aos mais frágeis. Contemplar o Crucificado exaltado é deixar-se conduzir pelo dinamismo pascal: da entrega nasce a vitória, da morte brota a vida, do fracasso humano resplandece a glória de Deus. Exaltar a cruz é, em última instância, proclamar o amor que salva e a fé que guia a Igreja em sua peregrinação rumo à eternidade.
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.
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