

Retomamos as liturgias dos Domingos do Tempo Comum acompanhando o itinerário missionário de Jesus compondo o grupo de discípulos, em vista do fortalecimento da atividade missionária. O texto que nos ajuda a rezar neste 10º Domingo do Tempo Comum é de Mateus (Mt 9,9-13).
Além do que, a primeira leitura proposta para a liturgia dominical, extraída do profeta Oseias (Os 6,3-6), já aponta o sentido da ação de Deus no mundo, especialmente diante do seu povo de Israel. Ele age e quer misericórdia. O profeta explicita esta vontade. Deus quer amor e não sacrifícios, conhecimento de si mais que holocaustos (Os 3,6). Propõe uma experiência profunda que supera a mera aparência, uma experiência que seja verdadeiramente transformadora.
O profeta é convocado a ser o porta-voz da vontade divina. Todavia, a vontade divina compreendia a justiça e a superação das desigualdades, presentes na trajetória do povo de Israel. Era necessária verdadeiramente uma transformação pessoal e social, a mudança nos rumos daquele povo. O profeta Oseias fez-se o porta-voz deste pedido.
Seguindo a experiência do profeta Oseias lê-se o encontro de Jesus com Mateus, o cobrador de impostos. O encontro teve o acento da misericórdia. Destaca-se então o chamado de Jesus, a ponta resposta de Mateus e as consequências desse diálogo marcado pela misericórdia. O texto ainda menciona aqueles que se inquietaram com a experiência salvadora, os fariseus.
Mateus era coletor de impostos, uma espécie de micro-empresário que adquiriu do Estado o direito de arrecadar impostos pagando uma quantia estipulada pelas leis da época. Além de ser uma profissão malvista, considerada desonrosa pelos judeus, não garantia a sobrevivência da pessoa.
Os cobradores de impostos eram considerados impuros pelos fariseus devido à ligação com os romanos, assim como os demais “impuros” daquele tempo, aleijados, leprosos, cegos, entre outros. Vê-se que, diferente de Zaqueu (chefe dos cobradores), Mateus não era uma pessoa abastada. Era pobre, impuro e marginalizado. Esse homem escuta Jesus e O segue. Mas a iniciativa foi de Jesus. Assim como havia chamado pescadores para a atividade missionária (Mt 4,18-22) vai reforçar e diversificar o grupo com um ex-cobrador de impostos. A iniciativa foi de Jesus porque Ele não se deixava contaminar pelo código religioso-social da época. A Sua proposta ia mais além.
O sim de Mateus teve consequências. Pode-se afirmar que foi um sim missionário.
Ele aderiu a Jesus ao ponto de deixar seu trabalho de cobrador de impostos e também fez de sua casa (oikos), o lugar de encontro de Jesus com outras pessoas que viviam nas mesmas condições, marginalizadas e excluídas.
Segundo o texto, pecadores e cobradores de impostos. O encontro não foi na rua, mas na sua casa, lugar teológico de experiência da misericórdia. Além de ser chamado e aceitar o convite, ele fez-se um homem de mediação do encontro de Jesus com outros marginalizados. Uma vocação que provocou outras vocações. A sua experiência poderia ser vivida por outros como descreve o texto: enquanto Jesus estava em casa de Mateus, vieram muitos outros cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos (Mt 9,10).
O encontro de Jesus e Mateus na casa não passou despercebido pelos partidários do legalismo e do código da pureza. A atitude de se sentar à mesa e partilhar a refeição com alguém revela intimidade e proximidade.
Para os fariseus, Jesus, ao tomar aquela atitude, estava se tornando impuro. A proximidade com um impuro não era tolerada. Estava fazendo-se um deles. Seria melhor ter ficado fora, em vista da sua “integridade religiosa”, já que era considerado “mestre”. E manifestaram a ponderação aos discípulos: por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores? Aquela atitude de Jesus não entrava no esquema religioso deles.
Jesus, ao entender a reação dos fariseus, respondeu de duas formas. Primeiro com uma ironia: aqueles que têm saúde não precisam de médico, sim os doentes (Mt 9,12). Caso os fariseus se considerassem salvos, curados, logo, não precisavam de Jesus e sua presença. Justificava o diálogo com os demais que ansiavam pela cura aqui compreendida como salvação.
Em seguida faz uma afirmação: quero misericórdia e não sacrifício (Mt 9,13). Explicita o sentido da sua missão, colocar a misericórdia do Pai acima de um sistema religioso que exclui e abandona, como explicita o profeta Oseias (primeira leitura). A misericórdia acolhe e sugere um novo caminhar. Aqueles pecadores, que não eram justos segundo o sistema farisaico, estavam abertos ao diálogo com Jesus, e por isso, a casa de Mateus foi o lugar daquele bonito encontro.
Jesus viu Mateus e o chamou. Mateus viu Jesus e a misericórdia a ele alcançada pelo Filho de Deus.
Mateus viu também a possibilidade de outra realidade para sua vida, fazer-se discípulo. Por isso, não hesitou em deixar o trabalho de coletor de impostos para seguir Jesus. Viu mais: a oportunidade de fazer da sua casa o lugar para que outros marginalizados se encontrassem com Jesus.
Ele viu o seu futuro e o futuro dos outros com o olhar da fé. Possamos aprender de Mateus esta capacidade de ver.