
Maria, Mãe de Deus, e o sentido teológico da Paz
A celebração de 1º de janeiro como solenidade de Maria, Mãe de Deus, não nasce de um sentimentalismo mariano tardio, mas de um núcleo cristológico sólido.
Trata-se de uma data que articula três eixos inseparáveis da fé cristã:
- a Encarnação;
- a identidade de Cristo; e,
- a paz como dom messiânico.

Maria, Mãe de Deus: fundamento cristológico
O título Theotókos (“Mãe de Deus”) foi solenemente afirmado pelo Concílio de Éfeso, em 431. A controvérsia girava em torno de uma questão simples e explosiva: quem é, de fato, Jesus Cristo?
Neste momento, é importante relembrar alguns conceitos e momentos de nossa amada Igreja.
O que é um concílio e quantos tivemos?
Um concílio (“concilium” = reunião) é uma assembleia solene de autoridades eclesiásticas, geralmente bispos e cardeais, para juntos discutir e tomar decisões sobre questões de fé, doutrina, disciplina ou moral da Igreja. Este concílio pode abranger toda a Igreja e desta forma o denominamos ecumênico ou regiões específicas (provincial, nacional), que são os concílios locais.
Neste sentido, sobre os concílios ecumênicos, a Igreja reconhece vinte e um. Iniciando por Nicéia em 325 e findando com o Vaticano II em 1965.
Vale salientar que muitas decisões cruciais da nossa fé foram temas destes encontros. Por isso, normalmente, como resultado deles, temos o combate às heresias, como é o caso de Éfeso, contra as ideias do patriarca de Constantinopla, Nestório, e por consequência a consolidação de dogmas, que são nossas verdades de fé, como o título de Mãe de Deus a Maria.
Apenas para esclarecer, Nestório entendia que Maria não poderia ser Theotókos (Mãe de Deus), mas sim Christotókos (Mãe de Cristo). No entendimento dele, Deus não poderia sofrer e morrer como aconteceu com Jesus. Esta heresia foi contestada por Cirilo de Alexandria, que defendeu com afinco a inseparabilidade das duas naturezas, divina e humana, desde a Encarnação no seio de Maria.
Ainda, esta verdade de fé está expressa em nosso Catecismo, no nº 495, onde traz:
“Maria é verdadeiramente ‘Mãe de Deus’, pois é Mãe do Filho eterno de Deus feito homem.”
Por que a Igreja escolheu o dia 1º de janeiro como data oficial deste reconhecimento de Maria, bem como de seu Filho Jesus?
A escolha do dia 1º de janeiro está ligada à estrutura do ciclo natalino. Oito dias após o Natal (oitava do Natal), a liturgia celebra a plenitude do mistério da Encarnação, colocando Maria como a responsável pela humanidade de Jesus, e a reforma litúrgica pós-conciliar consolidou esse sentido.
Dessa forma, o Missal Romano define oficialmente:
“No dia 1º de janeiro, oitava do Natal, a Igreja celebra a Solenidade de Maria Santíssima, Mãe de Deus.”
Essa decisão foi reafirmada pelo Papa Paulo VI, que viu nessa data um ponto de convergência entre cristologia, mariologia e ética cristã.
Iconografia de Maria, Mãe de Deus
As iconografias são verdadeiras artes sacras que nos transmitem, através de uma imagem, ensinamentos que nos sustentam em nossas certezas de fé.
Pense, neste momento, em todos os painéis e vitrais da Catedral. O simples fato de na manjedoura de Jesus não ter palha, mas trigo, como nos ensina o padre Ivanir, remete nosso olhar e coração à Belém, a casa do pão, pois Jesus é o Pão Vivo, que se dá todos os dias em Eucaristia para todos nós.
Neste sentido, essa imagem da Theotókos é rica em detalhes e significados.
Porém, para nos ajudar a compreender, vamos nos focar em três versões de iconografia.
Theotokos Odighitria (Guia)

Maria está com o Menino Deus em seu colo e ela O está apresentando para nós. Percebam as mãos apontando para Ele. Da mesma forma, vemos as Mãos do Menino em símbolo de bênção.
Vale ressaltar que em muitas imagens há o significado de Hodegetria, ou seja, ao Maria apontar para Jesus, ela mostra o Caminho para todos nós.
Ainda, o Menino não é um bebê comum. Vejam a postura hierática, o rosto sério e olhar de adulto. Isso é para nos recordar que Jesus é Deus. Ele tem a substância humana, mas é Divino, o Verbo Encarnado de Deus, O que sempre existiu.
Por fim, as vestes de Maria nos transmitem alguns ensinamentos também: o manto azul ou púrpura reflete a humanidade, que pela graça divina, foi elevada à dignidade real. Ainda, as três estrelas (testa e ombros) que significam a virgindade perpétua de Maria: antes do parto (concepção imaculada), durante o parto (nascimento milagroso) e após o parto (pureza e virgindade contínua).
Theotokos Orante (Platytera ou Grande Panaghia)

Maria é representada de pé ou sentada, com as mãos erguidas em oração, e o Menino Jesus em um círculo ou medalhão sobre seu peito.
Esta imagem simboliza a Igreja e a encarnação de Deus no ventre humano
Theotokos Eleousa (Ternura ou Misericórdia)

Já a iconografia Eleousa nos brinda com a ternura entre mãe e Filho.
Perceba como o rosto dos dois se encostam, mas o olhar de Maria não está no Menino, mas para fora, continuando a nos apresentar O centro de nossas vidas.
Peçamos que Maria, Mãe de Deus e nossa, nos dada por seu Filho, queira continuar intercedendo e nos mostrando sempre O verdadeiro Caminho, A paz e A alegria infinita.
O que significam as letras que aparecem nas iconografias
1. ΜΡ ΘΥ (MP–THY)
Essas quatro letras aparecem ao lado da cabeça de Maria, normalmente divididas em dois blocos.
São abreviações gregas de:
Μήτηρ Θεοῦ (Meter Theou)
Mãe de Deus
ΜΡ = Μήτηρ (Mãe)
ΘΥ = Θεοῦ (de Deus, no genitivo)
Aqui temos a afirmação dogmática direta, fixada depois do Concílio de Éfeso.
2. IC XC (Jesus Cristo)
Sobre o Menino, aparecem essas letras:
ΙϹ (IC) = Jesus
ΧϹ (XC) = Cristo
É o chamado Cristograma, afirmando que o Filho a Mãe de Deus é Jesus o Cristo (o Messias)
Em muitas versões, ainda aparece a mão direita em gesto de bênção.
Ο ΩΝ (“Aquele que É”)
Em ícones mais completos, especialmente no halo de Cristo, surgem três letras:
3. Ὁ ὬΝ (Ho On)
“Aquele que É”
Referência direta a Êxodo 3,14, quando Deus revela Seu nome a Moisés.
Na iconografia da Theotokos Orante (Platytera ou Grande Panaghia), temos mais uma frase: Ἡ Πλατυτέρα Τῶν Οὐρανῶν e ela quer dizer:
4. Η ΠΛΑΤΥΤΕΡΑ (à esquerda do corpo de Maria)
Aqui está o título específico do ícone:
Ἡ Πλατυτέρα
= A Mais Ampla / A Mais Vasta
5. ΤΩΝ ΟΥΡΑΝΩΝ (à direita)
Completando a frase:
Τῶν Οὐρανῶν
= do que os céus [são]
Ou seja, a frase inteira lida assim:
Ἡ Πλατυτέρα τῶν Οὐρανῶν
A Mais Ampla que os Céus
Isso vem de um hino litúrgico bizantino e significa algo muito concreto:
Maria é “mais ampla que os céus”,
porque contém Aquele que o céu não pode conter.
Podemos, por analogia, pensar no que o anjo Gabriel disse – “Alegra-te, cheia de graça. […] Encontraste graça junto a Deus”. (Lc 1, 28-30).
Essa inscrição só faz sentido porque o Cristo aparece dentro dela, no medalhão.
Por quê há mais letras na iconografia da Theotokos Orante (Platytera ou Grande Panaghia)?
Porque este é um ícone arquitetônico e litúrgico, não devocional privado.
A Platytera:
costuma ficar no ábside, atrás do altar
dialoga com a Eucaristia
afirma visualmente:
Aquele que se oferece no altar é o mesmo que Maria gerou na carne.
Leia também sobre importantes datas e assuntos de nossa doutrina católica, na Fé em perspectiva!
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.