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Eco da Palavra: reflexões sobre o Evangelho Dominical com o Padre Ari
📘 Reflexão: Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, Solenidade | Lc 23,35-43
✍️ Autor: Padre Ivanir Antonio Rodighero
Reinado de Jesus e a vocação transformadora dos leigos e leigas
Reinado de Jesus e a vocação transformadora dos leigos e leigas

O Reinado Diferente de Jesus e a Vocação Transformadora dos Leigos e Leigas

“Acima dele havia um letreiro:

‘Este é o rei dos judeus’” (Lc 23,38)

Ao celebrarmos a Solenidade de Cristo Rei, no último domingo do ano litúrgico, a Igreja nos convida a contemplar a identidade mais profunda de Jesus a partir da cena surpreendente apresentada pelo Evangelho: o Crucificado é proclamado Rei. Depois de percorrer, ao longo do ano, os grandes mistérios da vida do Senhor — da encarnação à ressurreição — somos conduzidos ao coração da fé cristã: o Reino de Deus se manifesta na humildade, no serviço e no amor sem medida. Lucas 23,35–43 nos desafia a enxergar a realeza de Cristo não na força, mas na misericórdia; não no poder, mas na entrega; não no triunfo exterior, mas na vitória do amor que salva.

Dia especial para leigos e leigas

Solenidade de Cristo Rei e celebração dos leigos e leigas. Google Imagens (2025). Disponível em: https://paroquiasaogeraldo.com.br/noticia/leigos-e-leigas-membros-do-povo-nao-da-plebe-o-laicato-na-igreja-e-no-mundo-4/
Solenidade de Cristo Rei e celebração dos leigos e leigas. Google Imagens (2025). Disponível em: https://paroquiasaogeraldo.com.br/noticia/leigos-e-leigas-membros-do-povo-nao-da-plebe-o-laicato-na-igreja-e-no-mundo-4/

Neste domingo, recordamos de modo especial os cristãos leigos e leigas, chamados a fazer do Batismo a fonte e o horizonte de sua missão no mundo.

À luz de Cristo Rei — cujo reinado se expressa no serviço, na compaixão e na promoção da dignidade humana — reconhecemos a vocação própria do laicato: ser presença transformadora nas realidades familiares, profissionais, políticas, sociais e culturais.

São homens e mulheres que, inseridos nas estruturas do mundo, testemunham o Reino não com poder ou prestígio, mas com a força humilde do Evangelho vivido no cotidiano.

Quando atuam com ética, defendem os pobres, promovem a justiça, cuidam da criação, servem nas comunidades e sustentam a vida eclesial com seus dons, os leigos e leigas tornam visível o reinado de Jesus Cristo que se expande silenciosamente no mundo.

Rezamos por eles, para que permaneçam firmes em sua missão de ser “sal da terra e luz do mundo”, verdadeiros construtores do Reino inaugurado na Cruz. 

Um ano que termina...

Ao concluir o ano litúrgico, a Igreja nos conduz ao ápice do itinerário espiritual percorrido: celebrar Cristo Rei. Depois de contemplarmos, ao longo do ano, a encarnação, ministério, paixão, morte, ressurreição e ascensão do Senhor, somos convidados a reconhecer, na figura do Crucificado, o horizonte definitivo da história. Não se trata de um encerramento meramente cronológico, mas de um ato de fé: aquele que nasceu pobre em Belém é o mesmo que reina na Cruz, revelando a plenitude do amor de Deus.

Que Rei é Jesus?

Contudo, poucas palavras parecem tão inadequadas para Jesus quanto o título de “rei”. Ele é um rei absolutamente singular. Enquanto os reis deste mundo vivem da submissão dos seus súditos, Jesus se apresenta como aquele que serve e entrega a própria vida. Seu trono é a cruz, sua coroa é de espinhos, seu manto é o silêncio do abandono. Nesse paradoxo, a liturgia revela a identidade mais profunda de Jesus: o Deus que reina despojando-se de toda forma de poder.

O Evangelho de Lucas mostra com clareza onde Jesus é proclamado Rei: no Calvário. Ali Ele manifesta um senhorio que não se apoia na força, mas na misericórdia. Reina pelo perdão oferecido a seus algozes; reina pela compaixão que abraça a dor humana; reina por escolher a solidariedade e não a violência; reina, enfim, fazendo da própria fraqueza o lugar de sua vitória. Esse reinado é incompreensível para a lógica do mundo, porque se fundamenta na entrega total.

Na cultura contemporânea, a imagem da realeza perdeu relevância e, muitas vezes, torna-se até motivo de antipatia. Por isso, o título de “Cristo Rei” necessita ser purificado de leituras triunfalistas que, no passado, tentaram associá-lo ao poder político ou a uma Igreja hegemônica. Se continuarmos revestindo Jesus de símbolos de grandiosidade mundana, corremos o risco de transformá-lo em uma figura mítica e distante, incapaz de tocar a vida real das pessoas e de inspirar caminhos de conversão.

O verdadeiro Reinado de Cristo

O verdadeiro reinado de Jesus é o oposto do triunfalismo religioso. Ele não domina, mas liberta; não subjuga, mas levanta; não exclui, mas integra. Seu Reino floresce onde cresce o serviço, onde a dignidade é restaurada, onde o pobre é acolhido, onde a misericórdia supera a condenação. É este Rei — pobre, próximo, compassivo — que se solidariza com todos os crucificados da história e lhes abre as portas da esperança.

Aplicar o título de “rei” a Jesus exige, portanto, despojá-lo de todo sentido de dominação. O Evangelho revela que Ele rejeita tanto o poder que oprime quanto a passividade que se deixa dominar. Seu desejo é formar homens e mulheres livres, capazes de manifestar a presença de Deus através da própria humanidade. O Reino que Ele inaugura não confere privilégios, mas vocação: todos somos chamados a participar de sua realeza pela prática da justiça, da fraternidade e da compaixão.

Celebrar Cristo Rei

Nesta linha, compreende-se que a Solenidade de Cristo Rei não tem a função de exaltar um poder religioso ameaçado, como ocorreu historicamente na instituição da festa em 1926.

O Concílio Vaticano II e a leitura madura do Evangelho convidam a superar essa perspectiva. A Igreja, à imagem de seu Senhor, não é chamada a dominar o mundo, mas a ser fermento de transformação, promotora de dignidade e artesã da reconciliação. Seu poder é o serviço; sua autoridade, o testemunho.

Celebrar Cristo Rei significa afirmar que o mundo pertence a Deus e não às forças de morte.

Ele será verdadeiramente “Rei do Universo” quando a justiça florescer, quando a paz se tornar realidade, quando os excluídos tiverem lugar à mesa, e quando cada pessoa libertada puder viver como filha e filho do Pai.

Seu reinado cresce sempre que fazemos descer da cruz aqueles que hoje são crucificados pela pobreza, pela violência, pela indiferença e pela negação de seus direitos.

Que Rei é Jesus para você

Que Rei é Jesus para você? Google imagens (2025). Disponível em: https://cmovic.cnbb.org.br/cristaos-leigos-e-leigas-profecia-e-esperanca/
Que Rei é Jesus para você? Google imagens (2025). Disponível em: https://cmovic.cnbb.org.br/cristaos-leigos-e-leigas-profecia-e-esperanca/

O Evangelho deste domingo coloca diante de nós a cena dramática da crucifixão. Ali, diferentes personagens reagem ao sofrimento de Jesus: autoridades religiosas zombam dele, soldados o ridicularizam, um dos malfeitores o insulta. Todos, de algum modo, esperavam um Messias poderoso, capaz de escapar do sofrimento. E, no entanto, nenhum deles compreendeu a profundidade do gesto de Jesus, que realiza a vontade do Pai silenciosamente, com amor e mansidão.

Somente o “bom ladrão” reconhece o verdadeiro Rei. Em meio aos insultos, ele descobre na fragilidade de Jesus a presença da misericórdia que salva. Seu pedido humilde — “lembra-te de mim” — revela o núcleo do Reino: Deus está mais próximo dos pecadores que se reconhecem necessitados do que daqueles que se julgam autossuficientes. E Jesus, Rei crucificado, pronuncia a palavra definitiva da liturgia e da vida: “Hoje estarás comigo no Paraíso.” Assim, o ano litúrgico termina proclamando que o Reino de Deus se abre para todos os que acolhem o amor que brota da Cruz.

Solenidade de Cristo Rei

A Solenidade de Cristo Rei, iluminada pelo diálogo entre Jesus e o bom ladrão, nos recorda que o Reino inaugurado na Cruz continua a avançar sempre que escolhemos a justiça, o serviço e a misericórdia. O Crucificado permanece sendo esperança para todos os que sofrem e chamado para todos os que creem. Ao encerrar o ano litúrgico, renovamos nossa fé naquele que reina servindo e que transforma corações pela força do amor. Que, configurados ao Rei humilde e crucificado, sejamos testemunhas de seu Reino no mundo, para que muitos possam ouvir, já hoje, a promessa que transforma vidas: “estarás comigo no Paraíso”.

Parabéns a vocês, cristãos leigas e leigos, por seguirem Jesus com generosidade e perseverança! No silêncio da vida cotidiana, nas lutas por dignidade, na fidelidade às pequenas tarefas, na atenção aos pobres e na participação na vida de nossas comunidades, vocês tornam visível o Reino de Jesus, que cresce na simplicidade das ações concretas e no amor que se faz serviço. Que o Rei crucificado continue fortalecendo cada um e cada uma na missão de transformar o mundo a partir do Evangelho. Que sua coragem, sua fé e seu testemunho sejam sempre sinais vivos de esperança para toda a Igreja e para a sociedade.

Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.

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