

Neste mês de setembro, mês da Bíblia, fomos desafiados a ler a Carta aos Romanos tendo como lema a expressão “Esperança não engana” (Rm 5,5).
Essa esperança, segundo o apóstolo Paulo, não é ilusória nem frágil, pois está enraizada na fé em Jesus Cristo.
Ela não se baseia em promessas humanas, mas na certeza do amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo. É uma esperança que atravessa as tribulações, transformando o sofrimento em caminho de vida.
As dificuldades não são obstáculos para quem crê, mas oportunidades de crescimento. Como Paulo afirma, “a tribulação produz perseverança, a perseverança produz virtude provada, e a virtude provada produz esperança” (Rm 5,3-4). Essa esperança não decepciona, porque tem como fundamento o batismo, que nos insere na vida nova em Cristo e nos conduz à reconciliação com Deus e com os irmãos.
A reconciliação é fruto do amor gratuito de Deus, que nos amou primeiro, sem que o merecêssemos. Esse amor é fonte de paz — não uma paz superficial, mas profunda, que nasce da certeza de que somos filhos e filhas amados, chamados à comunhão e à missão.
A esperança cristã, portanto, não é fuga da realidade, mas força para transformá-la. Ao acolher essa esperança, somos convidados a viver como testemunhas da fé, da perseverança e da paz.
Somos chamados a ser sinais do Reino, construindo pontes onde há divisões, oferecendo consolo onde há dor, e anunciando que o amor de Deus é maior que qualquer sofrimento.
A esperança que não engana é aquela que nos move a amar, servir e confiar.

Hoje somos desafiados a contemplar com atenção a parábola do rico e Lázaro, narrada em Lucas 16,19–31.
Essa narrativa evangélica revela, com força profética, o abismo que separa os que vivem na indiferença e no luxo daqueles que sofrem à margem da sociedade. Trata-se de uma denúncia contundente contra a insensibilidade dos que acumulam bens e ignoram o sofrimento dos pobres.
Segundo Ivo Storniolo, “os ricos cavam um abismo que os separa da Vida, e que esse abismo nem mesmo um Ressuscitado pode transpor” — uma imagem poderosa que revela a gravidade das escolhas humanas diante da justiça divina.
Lucas, mais do que qualquer outro evangelista, destaca o perigo que as riquezas representam para quem deseja seguir Jesus. Ele não condena o dinheiro em si, mas a atitude de fechamento, de egoísmo e de desprezo pelos pequenos.
Ao mesmo tempo, exalta a proximidade de Deus com os pobres, os humildes e os excluídos, revelando que o Reino de Deus pertence àqueles que confiam, esperam e se abrem à graça.
A parábola, portanto, não é apenas uma crítica social: é um chamado profundo à conversão, à escuta do clamor dos pobres e à solidariedade ativa.
No primeiro ato da parábola, Lucas apresenta um contraste dramático entre dois mundos: o do rico, envolto em luxo e indiferença, e o de Lázaro, mergulhado na miséria e no abandono.
O rico se veste com púrpura e linho fino — tecidos caros e importados, símbolos de ostentação — e banqueteia-se todos os dias com seus amigos, ignorando completamente a realidade ao seu redor. Já Lázaro, cujo nome significa “Deus ajuda” ou “aquele a quem Deus socorre”, jaz à porta do rico, doente, faminto e vulnerável, à espera de migalhas que caem da mesa.
Os cachorros, considerados impuros na cultura judaica, lambem suas feridas, evidenciando o extremo abandono social e sanitário.
A narrativa destaca que Lázaro tem nome, enquanto o rico permanece anônimo — um recurso literário que revela a inversão de valores do Reino de Deus: o pobre, desprezado pelos homens, é reconhecido e valorizado por Deus. Esse detalhe reforça a dignidade dos pequenos e marginalizados, e denuncia a cegueira espiritual dos que vivem voltados apenas para si mesmos.
No segundo ato da parábola, a morte surge como o grande nivelador: tanto o rico quanto Lázaro morrem, mas seus destinos revelam uma inversão radical de valores.
Lázaro, que em vida foi ignorado, é agora acolhido no seio de Abraão — expressão que simboliza a comunhão com Deus, a vida eterna e a dignidade restaurada. Já o rico, que antes vivia em abundância e desprezo, é simplesmente enterrado e mergulhado em tormento.
A narrativa sublinha que, mesmo após a morte, o rico tenta manter sua postura de superioridade, chamando Abraão de “pai” e pedindo que Lázaro lhe sirva com uma gota de água.
No entanto, entre os dois há um abismo intransponível — não apenas geográfico, mas espiritual e ético. Esse abismo foi cavado pelo próprio rico, com sua indiferença, egoísmo e recusa em reconhecer a humanidade do outro.
A parábola denuncia que a falta de solidariedade não é apenas uma falha moral, mas uma escolha que constrói distâncias eternas entre os que vivem para si e os que se abrem ao amor e à justiça.
Esse abismo representa mais do que uma separação geográfica entre céu e inferno: é a distância existencial entre a vida plena e a não-vida, entre quem se fecha em si mesmo e quem se abre ao serviço dos irmãos. É o abismo cavado pela indiferença, pela arrogância e pela recusa em reconhecer a dignidade do outro.
Lázaro, que em vida foi desprezado, ignorado e tratado como invisível, agora é valorizado, protegido e acolhido no seio de Abraão. O rico, que antes zombava e esbanjava seus recursos sem compaixão, é agora silenciado, privado até mesmo da palavra que antes usava para comandar.
Como afirma o texto profético, “a esse rico não está destinado o ano da graça do Senhor (Is 61,1), mas o dia da vingança do nosso Deus (Is 61,2b)”.
Ele não é lembrado entre os libertários, pois sua vida foi marcada pela opressão e pela surdez ao clamor dos pobres. A parábola denuncia que a verdadeira separação não é feita por Deus, mas construída pelas escolhas humanas — e que a salvação passa pela solidariedade, pela escuta e pela justiça.
No terceiro ato da parábola, o rico, agora em tormento, tenta interceder por seus irmãos, pedindo que Lázaro seja enviado para adverti-los.
Essa súplica revela uma tardia preocupação familiar, mas também uma tentativa de manter o controle — mesmo na morte, o rico continua dando ordens, como fazia em vida.
Abraão, porém, responde com firmeza: os irmãos já têm Moisés e os profetas, ou seja, já possuem a Palavra de Deus e os sinais suficientes para se converterem.
A recusa de Abraão em enviar Lázaro mostra que a conversão não depende de milagres extraordinários, mas da abertura do coração à verdade já revelada.
A dureza dos ricos, que ignoram o clamor dos pobres, é tamanha que nem mesmo a ressurreição de um morto os convenceria.
Enquanto isso, Lázaro, que na terra foi ignorado e desprezado, é agora acolhido como filho, recebendo o carinho, a dignidade e a valorização que lhe foram negados.
Abraão o mantém em seu “seio”, expressão que indica intimidade, proteção e honra — uma imagem poderosa da justiça divina que reverte os papéis sociais e exalta os humildes.
Por fim, a parábola revela um Deus profundamente comprometido com a justiça e sensível à dor dos pobres. Trata-se de um Deus que vê, escuta e intervém — como afirma Êxodo 3,7:
“Eu vi a aflição do meu povo… ouvi o seu clamor… e desci para libertá-lo.”
Essa mesma compaixão divina se manifesta quando os anjos conduzem Lázaro à terra prometida, sinal de que sua vida, marcada pela fome, pela exclusão e pelo desprezo, não passou despercebida aos olhos de Deus.
Abraão, figura paterna e acolhedora, encarna esse Deus que abraça os pequenos, que valoriza os esquecidos e que rejeita a arrogância dos que se fecham em si mesmos.
A parábola, portanto, não é apenas uma denúncia social, mas um apelo escatológico e ético: um convite urgente à conversão, à escuta do clamor dos pobres e à construção de pontes onde há abismos. É um chamado para que a fé se traduza em solidariedade, e para que a esperança no Reino de Deus se manifeste já na terra, por meio da justiça e do amor ao próximo.
Diante da Palavra que nos interpela, somos convidados a unir os dois grandes eixos da reflexão: a esperança que não engana e a parábola que denuncia.
A esperança cristã, firmada na fé em Jesus Cristo, não é ingênua nem passiva — ela exige compromisso com a justiça, escuta dos pobres e coragem para atravessar os abismos que separam os mundos.
A parábola do rico e Lázaro nos mostra que a salvação não é privilégio, mas resposta concreta ao amor de Deus que nos alcança e nos transforma.
Que neste tempo de escuta da Carta aos Romanos e do Evangelho de Lucas, sejamos capazes de viver uma esperança encarnada, que não decepciona, porque se traduz em reconciliação, serviço e comunhão.
Que possamos ser pontes vivas entre o céu e a terra, entre os que sofrem e os que podem aliviar, entre o Reino que já chegou e aquele que ainda esperamos.
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.
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