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Eco da Palavra: reflexões sobre o Evangelho Dominical com o Padre Ari
📘 Reflexão: 23º Domingo do Tempo Comum, Ano C, Lc Lc 14,25-33
✍️ Autor: Padre Ivanir Antonio Rodighero
Seguir Jesus: ser discípulo ou multidão? Imagem gerada por IA
Seguir Jesus: ser discípulo ou multidão? Imagem gerada por IA

Seguir Jesus: da multidão ao discipulado autêntico

Neste mês de setembro, a Igreja no Brasil nos convida a uma escuta atenta da Palavra de Deus, iluminada pela Carta aos Romanos, onde São Paulo proclama com vigor: “A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,5).

Essa esperança, enraizada no amor de Deus, não é fuga do mundo, mas força transformadora que sustenta a caminhada de comunidades e de todo o povo de Deus.

Ao mesmo tempo, celebramos o Dia da Pátria, ocasião para olhar o Brasil com responsabilidade e fé, pedindo a graça de uma verdadeira independência: não apenas a liberdade política, mas aquela que rompe as cadeias da injustiça, da corrupção, da desigualdade social e de todas as formas de escravidão moderna.

Escutar a Palavra, neste contexto, significa também escutar o grito das pessoas pobres e excluídas.

O que ecoa em nossos corações o seguir Jesus?

É nesse horizonte que acolhemos o Evangelho de Lucas (14,25-33), que nos provoca a discernir o que significa ser discípulas e discípulos de Jesus: não apenas caminhar na multidão, mas assumir o seguimento autêntico, marcado pela liberdade, pelo desapego e pelo compromisso com o Reino.

O evangelista apresenta Jesus caminhando à frente de uma grande multidão (Lc 14,25).

Esse detalhe não é secundário: no Evangelho de Lucas, o caminho é sempre lugar de discipulado, discernimento e decisão (Lc 9,51).

Muitas pessoas o acompanhavam por motivos diversos: desejo de cura, curiosidade, interesse político, entusiasmo momentâneo.

No entanto, Jesus se volta para todas e todos e esclarece: não basta estar na multidão; é preciso escolher o seguimento autêntico.

Desde o início, Lucas nos convida a distinguir entre simpatizar com Jesus e assumir a radicalidade de ser seu discípulo e sua discípula.

Duas exigências radicais para seguir Jesus

Duas exigências radicais para seguir Jesus. Fonte: Google Imagens (2025). Disponível em: https://static.wixstatic.com/media/8de04b_08d30497536e476b89392f4dfb253901~mv2.png/v1/fit/w_1000,h_452,al_c,q_80/file.png
Duas exigências radicais para seguir Jesus. Fonte: Google Imagens (2025). Disponível em: https://static.wixstatic.com/media/8de04b_08d30497536e476b89392f4dfb253901~mv2.png/v1/fit/w_1000,h_452,al_c,q_80/file.png

Essa distinção continua atual. Vivemos numa cultura do “seguir” superficial, típica das redes sociais: acompanhamos alguém, curtimos, comentamos, mas sem deixar que isso transforme nossa vida. No campo da fé, corre-se o risco de ser “fã” de Jesus, admirando-o à distância, mas sem abraçar seu estilo de vida. O Evangelho nos alerta contra essa superficialidade. Ser discípula e discípulo é mais do que apreciar o Mestre; é deixar-se configurar por Ele, assumindo suas escolhas e exigências. É a passagem do entusiasmo da multidão para a decisão madura da fé.

Por isso, Jesus apresenta exigências radicais.

A primeira é o desapego dos vínculos mais íntimos, inclusive da própria vida (Lc 14,26).

Não se trata de desprezar os afetos, mas de redimensioná-los à luz do Reino.

A fé cristã não rompe com a família, mas relativiza tudo aquilo que pode impedir a primazia de Cristo.

O discipulado é caminho de liberdade: não absolutizar pessoas, bens ou projetos pessoais, mas ordenar tudo em função de Deus.

A centralidade não é mais o sangue, mas a fé; não é o eu, mas o seguimento de Jesus.

Esse ponto é delicado também na pastoral. Ao longo da história, houve interpretações que levaram a rupturas desumanas.

Contudo, o testemunho de Maria nos mostra a verdadeira lógica do Evangelho: ela permaneceu mãe, mas moldou sua maternidade a partir da missão do Filho, acompanhando-o até a cruz.

Assim, o desapego não é negação, mas transformação dos afetos, para que não sejam obstáculos, mas sinais do Reino.

Seguir Jesus não exclui o amor humano; ao contrário, faz dele um amor maior, livre e fecundo.

A segunda exigência é a renúncia aos bens materiais (Lc 14,33).

Aqui o texto dialoga com a idolatria que atravessa gerações. Como lembra José Antonio Pagola, o ser humano, não raro, busca um “deus” que organize sua existência: dinheiro, poder, prestígio, prazer, segurança.

Esses ídolos prometem liberdade, mas escravizam.

Jesus, ao contrário, convida a uma liberdade nova, nascida do desprendimento.

Seguir o Mestre não significa viver sem nada, mas não ser dominada ou dominado por nada.

É reconhecer que tudo é dom de Deus e que só Ele pode ocupar o lugar central em nossa vida.

Ser livres para seguir Jesus

Ser livres para seguir Jesus. Fonte: Google Imagens (2025). Disponível em: https://oracioncristiana.org/wp-content/uploads/2022/08/30-Escrituras-Biblicas-Convincentes-Sobre-Seguir-a-Jesus.jpg
Ser livres para seguir Jesus. Fonte: Google Imagens (2025). Disponível em: https://oracioncristiana.org/wp-content/uploads/2022/08/30-Escrituras-Biblicas-Convincentes-Sobre-Seguir-a-Jesus.jpg

O Papa Francisco ajudou a compreender essa perspectiva: “acolher significa redimensionar o próprio eu, compreender que a vida não é minha propriedade privada” (Discurso à Família Vicentina, 2017).

O desapego, portanto, é pedagógico: esvaziar-se para ser preenchida ou preenchido pelo amor de Deus, abrir-se ao outro e ao bem comum.

A verdadeira independência, que também celebramos como Nação, não se alcança pela autossuficiência egoísta, mas pelo compromisso com a justiça e a fraternidade.

Ser discípula e discípulo é tornar-se livre para servir.

Jesus ilustra tudo isso com duas parábolas: a do construtor da torre e a do rei que avalia sua força diante da batalha (Lc 14,28-32).

Seguir Jesus não pode ser decisão impensada; exige discernimento, maturidade e responsabilidade.

O evangelho de hoje é, portanto, um chamado exigente e libertador: sair da multidão, assumir uma decisão pessoal e colocar Cristo no centro.

A Palavra nos recorda que a esperança que não decepciona nos sustenta no seguimento.

Ser discípulas e discípulos de Jesus é escolher a liberdade verdadeira, que nasce do desapego, se traduz em serviço e se compromete com a justiça e a fraternidade.

Só assim colaboramos no projeto do Pai e ajudamos a construir um Brasil e um mundo mais humanos, reconciliados e cheios de esperança.

Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.

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