

Neste Mês Vocacional de 2025, em que a Igreja do Brasil recorda a vocação dos leigos e leigas, agentes de pastorais e movimentos, somos iluminados pelo Evangelho de Lucas (Lc 13,22-30).
O tema proposto — “Peregrinos porque chamados” — convida-nos a olhar para nossa vida cristã como caminho, processo e resposta a Deus.
Mais uma vez, estamos diante de uma pergunta feita a Jesus: “É verdade que são poucos os que se salvam?”.
A resposta de Jesus não se fixa em números ou estatísticas, mas desloca o olhar para aquilo que realmente importa: viver o presente como tempo de graça, justiça e fidelidade ao chamado de Deus.
A salvação não é conquista voluntarista, como se fosse uma corrida individual até a linha de chegada.
Ela é dom de Deus, que desperta em nós o desejo de entrar no fluxo da sua graça, esvaziando-nos do egoísmo e abrindo-nos ao serviço oblativo e gratuito.
Jesus não se preocupa com a quantidade dos salvos, mas insiste na qualidade da resposta de cada discípulo no hoje da vida.
O futuro está nas mãos de Deus, mas a fidelidade ao Evangelho se verifica nas ações justas ou injustas que assumimos no presente.
Para explicar essa exigência, Jesus usa a imagem da “porta”.
Trata-se de um símbolo profundo: atravessar a porta é deixar para trás uma vida limitada e autocentrada para entrar numa vida nova, mais aberta, solidária e expansiva.
Ele mesmo se apresenta como a “Porta da Vida” (Jo 10,9), não para complicar a existência com novas exigências, mas para nos conduzir ao essencial.
Passar pela “porta estreita” implica humildade e desapego; significa esvaziar-se do próprio ego e aprender a viver no amor oblativo.
Entretanto, sabemos como é difícil sair de nossas “bolhas”.
Muitas vezes nos fechamos em ambientes conhecidos, seguros e cômodos, sem espaço para o diferente.
Nessas bolhas — afetivas, sociais, religiosas ou políticas — limitamos horizontes, atrofiamos perspectivas e nos tornamos incapazes de ver o amplo mundo que Deus nos confia.
Em outras palavras, fechamos “portas” à audácia do Espírito e à criatividade do amor.
O seguimento de Jesus, porém, nos convida a romper essas barreiras e a atravessar portas que nos levem ao encontro dos irmãos e irmãs.

O símbolo da porta revela também uma dimensão espiritual de passagem: deixar o “eu” fechado em si mesmo para abrir-se ao Outro e aos outros.
Trata-se de uma experiência de êxodo interior, como ensinam os místicos: sair do “próprio amor, querer e interesse” (Santo Inácio) ou viver “fora de si” no Senhor (Santa Teresa de Ávila).
Este movimento é arriscado e exige confiança, mas é nele que se encontra a verdadeira liberdade.
Tornamo-nos peregrinos, sempre em trânsito, sempre chamados a dar passos novos na fé.

É nesse horizonte que compreendemos a vocação dos leigos e leigas.
O Concílio Vaticano II reconheceu seu papel fundamental na missão da Igreja, e São João Paulo II, na Christifideles Laici, destacou sua corresponsabilidade na evangelização.
Leigos não são meros auxiliares, mas discípulos missionários que integram fé e vida, testemunhando o Evangelho em suas famílias, profissões, comunidades e compromissos sociais.
Quando Jesus anuncia que virão pessoas “do oriente, ocidente, norte e sul” para a mesa do Reino (Lc 13,29), aponta justamente para a universalidade dessa vocação, refletida na diversidade dos agentes de pastoral.
Assim, ser “peregrinos porque chamados” significa reconhecer que a salvação não é uma conquista isolada, mas caminho comunitário.
A exortação de Jesus — “Fazei todo esforço para entrar pela porta estreita” (Lc 13,24) — dirige-se a todos, como convite a caminhar juntos na corresponsabilidade e no serviço.
Leigos e leigas, especialmente aqueles que se dedicam nas pastorais e movimentos, são fermento de comunhão, justiça, esperança e misericórdia no mundo.
Que nossa Igreja seja cada vez mais sinodal, fraterna e missionária, onde todos se reconheçam como chamados a atravessar, juntos, a porta estreita da vida em Jesus Cristo.
Esperamos que essa leitura ilumine seu caminho e aprofunde sua fé.
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